Em Pauta: O Marxismo, a Decolonialidade e os Rumos da Crítica Antagonista nas Ciências Humanas

2026-02-19

Caras leitoras e caros leitores,

As ciências humanas brasileiras vivenciam um momento de intensa movimentação e fratura de consensos teóricos. No centro das recentes discussões está o ensaio "O teto de vidro da decolonialidade", do pesquisador Rafael Sousa Siqueira, que propõe uma reflexão crítica e contundente sobre a atual hegemonia da teoria decolonial nas universidades.

Utilizando como ponto de partida as recentes intervenções de Vladimir Safatle e Douglas Barros, o ensaio sistematiza um diagnóstico que recoloca o paradigma marxista na disputa pela interpretação do colonialismo, questionando as bases idealistas e identitárias de certas vertentes decoloniais.

O debate articula-se em torno de eixos fundamentais que interessam diretamente à nossa comunidade acadêmica:

A Crítica ao "FMI Universitário"

Apoiando-se na análise de Safatle, o texto aponta uma contradição na própria gênese decolonial: a sua consolidação através de relações de hegemonia cultural ditadas pelo Norte Global, funcionando como um receituário aplicado à periferia. A principal crítica reside no "desvio idealista", em que o foco na colonialidade dos discursos e saberes (epistemes) acaba por invisibilizar as bases materiais, a espoliação econômica e os conflitos de classe. Como resultado, tradições anticapitalistas forjadas nas lutas materiais de libertação na periferia terminam muitas vezes apagadas.

Os Limites do Romantismo Contracolonial

Avançando para a crítica de Douglas Barros ao pensamento de Nego Bispo, o ensaio alerta para os riscos de uma abordagem que se aproxima do romantismo do século XIX. A substituição do processo histórico-material por uma "guerra de cosmovisões" (orgânica versus sintética) tenderia a essencializar a raça e homogeneizar as experiências. Ao reduzir o embate a uma dimensão mítica e identitária monolítica, o sujeito político perde espaço para as contradições reais e para a práxis libertadora concreta.

O Conflito de Paradigmas

Siqueira conclui que as reações ruidosas a essas críticas não representam uma mera rixa acadêmica, mas um legítimo conflito de métodos científicos. De um lado, a exigência metodológica de focar na estrutura material e no sistema capitalista como totalidade; do outro, a centralidade das epistemologias, da raça e do território. O consenso inquestionável da decolonialidade encontra-se, assim, fraturado.

Chamada para o Debate

Para nós, que construímos uma sociologia fincada na práxis antirracista e no desenvolvimento do Sul Global, este embate é um território fértil. Acreditamos que a superação desse "teto de vidro" exige ir além da falsa dicotomia entre idealismo decolonial e marxismo ortodoxo cego para a cor da classe trabalhadora.

Convidamos nossas autoras e autores a lerem o ensaio de Rafael Sousa Siqueira e, sobretudo, a submeterem à revista manuscritos, ensaios e respostas que tensionem esse debate. O desafio está lançado: como forjar categorias analíticas que deem conta, simultaneamente, da raça como tecnologia de exploração e da estrutura material que sustenta o capitalismo dependente?

O espaço para a divergência qualificada está aberto em nossas próximas edições.

Equipe Editorial