GRAMÁTICA ADAPTADA:
Ressignificação religiosa e luta por moradia entre fiéis neopentecostais no Distrito Federal
DOI:
https://doi.org/10.65855/d6a9zg06Palabras clave:
Amefricanidade, Necropolitica , Interseccionalidade, Gramática adaptada , NeopentecostalismoResumen
Objetivo: apresentar e desenvolver o conceito de gramática adaptada, entendido como o processo pelo qual fiéis neopentecostais reinterpretam pragmaticamente as categorias doutrinárias da Teologia da Prosperidade para acomodar a participação em movimentos sociais de luta por moradia. Metodologia: a pesquisa adotou abordagem qualitativa, combinando observação participante, rodas de conversa e escuta ativa em dois espaços complementares no Distrito Federal, entre 2020 e 2024: a Ocupação Quilombo Anastácia, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em Planaltina, e três igrejas neopentecostais de Sobradinho II. A análise mobiliza, em chave amefricana e decolonial, as noções de colonialidade do poder, necropolítica e interseccionalidade como imbricação estrutural, em diálogo com a sociologia da religião vivida e a crítica da subjetividade neoliberal. Resultados: os fiéis não vivenciam oposição rígida entre fé individual e ação coletiva; a gramática religiosa se adapta ao contexto da luta habitacional — a moradia é reinterpretada como direito divino e a ocupação coletiva como meio legítimo pelo qual Deus provê. O conceito distingue-se do sincretismo por não supor mistura de doutrinas, mas deslocamento semântico que mantém a forma religiosa alterando o conteúdo material. Conclusão: a experiência religiosa neopentecostal das mulheres amefricanas periféricas é adaptativa e relacional, capaz de gerar tanto aquiescência à racionalidade neoliberal quanto formas inesperadas de mobilização coletiva.
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Os dados primários desta pesquisa — anotações de campo, registros de rodas de conversa e observações em cultos e em ocupação — não estão disponíveis publicamente em razão de salvaguardas éticas para proteção das interlocutoras participantes, em conformidade com a Resolução CNS nº 510/2016 e com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018). O material é constituído por registros sensíveis envolvendo pessoas em condições de vulnerabilidade social (mulheres em ocupação urbana removida por ação policial e fiéis de igrejas neopentecostais periféricas), cuja abertura comprometeria a confidencialidade e o consentimento informado que orientaram a coleta. Trechos analisados e descrições anonimizadas estão integralmente apresentados no corpo do artigo. Solicitações justificadas de acesso a material adicional anonimizado, para fins exclusivamente acadêmicos, podem ser dirigidas ao autor correspondente.
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