Trincheira Epistêmica no XIV COPENE: Revista Amefricana e IASC Saúdam Parceria com a ABPN e Celebram os Trabalhos Acolhidos no ST 093
A consolidação deste espaço de debate e aquilombamento científico não seria possível sem a dedicação e o rigor intelectual da nossa estimada conselheira, a Prof.ª Dr.ª Cristiane Lourenço. Expressamos o nosso mais profundo agradecimento à sua generosa parceria na coordenação desta frente de trabalho. A sua atuação exemplar reflete perfeitamente o espírito de solidariedade intelectual e compromisso com a práxis antirracista que move o nosso Instituto.
A coordenação conjunta deste simpósio atua em estrita consonância com o Artigo 5º da nossa recém-promulgada Resolução Aditiva de 22 de maio de 2026. Este dispositivo legal institucionalizou as políticas de cooperação em eventos científicos nacionais e internacionais do IASC, fixando o inovador mecanismo de Fast-Track Pedagógico. Através desta engrenagem regulatória, os artigos apresentados no ST 093 que forem recomendados pela coordenação do simpósio terão tramitação prioritária no sistema OJS da Revista Amefricana, sendo encaminhados de forma célere para a nossa Avaliação Construtiva e Pedagógica, encurtando a distância entre o debate público no congresso e a fixação do texto na Versão de Registro.
O conjunto dos dez trabalhos acolhidos para o Simpósio Temático 093 (ST 093) oferece um panorama sofisticado, interdisciplinar e profundamente ancorado na realidade social brasileira, revelando que a discussão sobre o Estado contemporâneo superou a mera abstração teórica para se assentar na análise da capacidade institucional e na práxis antirracista. A articulação dessas pesquisas desenha um mapa crítico de como as estruturas administrativas e as dinâmicas territoriais, econômicas e educacionais operam tanto como vetores de reprodução de desigualdades quanto como espaços de resistência e disputa política.
O panorama das discussões que o simpósio vislumbra organiza-se em torno de três grandes dimensões analíticas:
1. A Disputa por Métricas, Memória e a Descolonização do Olhar Estatal
As discussões iniciais do simpósio forçam uma ruptura com a suposta neutralidade técnica das ferramentas de gestão do Estado, demonstrando que o planejamento urbano e os indicadores estatísticos são campos de batalha ideológicos.
A Materialização Territorial do Racismo: A análise socioespacial concentra-se na periferização histórica da população negra. O debate demonstra que a segregação urbana é econômica e racializada, expondo como os investimentos em infraestrutura e a atuação do mercado imobiliário criam "cidades partidas".
A Urgência de Novos Indicadores: Diante da assimetria entre as diretrizes oficiais de igualdade e as práticas burocráticas cotidianas, emerge a necessidade de ferramentas de accountability. O simpósio propõe a criação de índices críticos que mensurem o racismo institucional e descolonizem as estatísticas públicas, qualificando a tomada de decisão.
A Fragilização Macroeconômica: Esse cenário de monitoramento é tensionado pelas pressões do modelo neoliberal. Os trabalhos alertam que os ciclos de ajuste estrutural do "Estado Ajustador" tendem a fragmentar o orçamento e a continuidade das políticas de promoção da igualdade racial.
2. Economia, Educação e Território como Estratégias de Reparação
Em uma segunda dimensão, as pesquisas debruçam-se sobre os eixos estruturantes do desenvolvimento e as ofensivas contemporâneas contra as conquistas históricas dos movimentos sociais.
Autonomia Financeira e Perspectiva Decolonial: O debate econômico ganha densidade ao analisar as barreiras estruturais e emocionais que afetam mulheres negras com renda. O simpósio propõe deslocar a educação financeira de uma lógica puramente individualista, inserindo-a como uma prática de emancipação e de combate às desigualdades estruturais.
A Trincheira Educacional sob Ameaça: O campo da educação surge como espaço de disputa severa. Diante de investidas legislativas contemporâneas que tentam esvaziar o caráter obrigatório do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena (como o PL 1007/2025), o simpósio reafirma a centralidade da Lei 10.639/03 como política de reparação e construção da identidade nacional.
Soberania Informacional e Ataques a Comunidades Tradicionais: A preservation da memória e da integridade física das populações tradicionais enfrenta os novos desafios da era digital. O debate revela que o racismo algorítmico e os "pânicos morais" propagados pelas plataformas digitais funcionam como engrenagens modernas de racismo religioso, criminalizando a ancestralidade de matriz africana para justificar a perseguição de lideranças quilombolas.
3. A Práxis na Burocracia de Nível de Rua e a Gestão das Políticas Sociais
A dimensão mais operacional do simpósio examina o cotidiano da máquina pública, investigando o poder discricionário dos agentes na ponta e os desafios de materializar direitos em contextos adversos.
O Protagonismo Invisibilizado das Mulheres Negras: O simpósio evidencia que as mulheres negras são as principais operadoras das políticas públicas e da ação estatal na ponta (como na saúde e na assistência social), embora enfrentem as contradições da sobrecarga e da invisibilização institucional.
A Gestão da Sobrevivência e da Violência: O debate sobre as políticas de assistência social (CRAS) ilumina o paradoxo de famílias monoparentais femininas que precisam optar entre a busca pela segurança econômica (via pensão alimentícia) e o rompimento de ciclos de violência de gênero e violência vicária. Revela-se aqui como a ausência de redes de apoio e o machismo estrutural sobrecarregam as relações de gênero, raça e classe na ponta da política pública.
Modelos Eurocentrados versus Territorialidades Específicas: A execução de políticas de segurança alimentar e climática é severamente criticada por sua permanente herança eurocentrada e técnica. Os trabalhos denunciam que programas de agricultura familiar desenhados para moldes europeus e processos participativos do Plano Clima eivados de barreiras linguísticas e burocráticas terminam por esvaziar os conceitos de racismo ambiental e as demandas de povos e comunidades tradicionais (PCTs).
Conclusão e Confluência Epistemológica
O panorama vislumbrado pelo ST 093 desenha um diagnóstico integrado: o Estado brasileiro, embora tenha avançado na institucionalização de agendas antirracistas, ainda abriga em suas entranhas administrativas mecanismos formais e informais que distorcem ou obstruem a equidade.
A grande confluência dos trabalhos reside na adoção de metodologias insurgentes — como a escrevivência, a educação popular e a análise materialista dialética — para demonstrar que a transformação da máquina pública exige a inclusão das experiências vividas dos sujeitos racializados como recurso analítico legítimo. O simpósio, portanto, consolida a perspectiva de que uma democracia efetiva e o desenvolvimento pleno do país são indissociáveis de uma gestão pública racialmente orientada e comprometida com a práxis antirracista.
Convidamos toda a nossa comunidade de leitores, autores e pareceristas a acompanhar os desdobramentos desta jornada em Brasília. Salve a ciência preta brasileira! Salve a ABPN e a lente Amefricana no XIV COPENE!
Helbson de Avila
Editor-Chefe da Revista Amefricana
Diretor Executivo do Instituto Amefricano de Sociologia Crítica (IASC)